DESATENÇÃO MATA 15 VEZES MAIS DO QUE ULTRAPASSAGENS INDEVIDAS NO BRASIL

A falta de atenção é responsável pela maioria dos acidentes e mortes no país. Falhas na legislação podem contribuir com o problema

Uma rápida olhada ao celular ou um gesto com a boa intenção de conferir se o filho está bem acomodado no bebê-conforto no banco de trás do carro podem ser suficientes para causar um grave acidente. Ações cotidianas são apenas algumas das atitudes que causam desatenção e são responsáveis por quase metade dos acidentes registrados em rodovias federais do Brasil no ano passado.

Há alguns anos, o principal vilão dos acidentes causados por distração ao volante eram os celulares, que começavam a ser incorporados na vida das pessoas. Por conta disso, as leis que proíbem a espiadinha no aparelho ficaram mais rígidas. Hoje, os celulares já estão inseridos no cotidiano, enquanto sistemas de interatividade acoplados ao painel dos carros popularizam-se no mercado. Essas novas tecnologias somadas a outras simples atitudes impulsionam o número de acidentes no mundo.

Distração com rádio, colisão no semáforo

Tirar os olhos da pista para trocar a estação de rádio no aparelho de som foi suficiente para que a analista de investimentos recém-habilitada Carolina Nakaoski passasse por um susto a bordo de seu Volkswagen Gol G3. “Enquanto conversava com uma amiga, que estava no banco do passageiro, fui mudar de música no rádio e não vi que o semáforo fechou. O carro que estava na minha frente parou, eu não percebi porque estava olhando para o rádio. Bati na traseira dele”, conta.

Carolina Nakaoski personagem Distração ao Volante (Foto: Arquivo pessoal)

Na época do acidente, Carolina ficou assustada e passou a ser mais cuidadosa enquanto dirigia. “Nos primeiros meses, ligava o rádio e só mudava de estação ou de música quando o carro estivesse parado”, explica. Hoje, aos 25 anos, a analista continua habilitada, dirige um Fiat Punto e mantém a lição que aprendeu em 2005 em mente.

Pesquisa do National Highway Traffic Safety (NHTSA) mostrou que…
Um motorista que segura um aparelho portátil e realiza uma tarefa olhando para a tela tem três vezes mais chances de se envolver em um acidente
Motoristas com menos de 25 anos tem de duas a três vezes mais chances de enviar SMS ou emails enquanto dirigem
Apesar de 90% dos motoristas consultados considerarem muito perigoso andar como passageiro em um veículo conduzido por uma pessoa distraída com um celular, 75% deles afirmam que atenderiam uma ligação telefônica enquanto dirigem

O acidente de Carolina não passou de um susto, já que ninguém se feriu. No entanto, a agência norte-americana de segurança viária, National Highway Traffic Safety (NHTSA), registrou 3.092 mortes em acidentes causados por distração, o que corresponde a 10% dos acidentes registrados nas rodovias federais dos Estados Unidos. O órgão realizou diversas pesquisas que apontaram o aumento na chance de se envolver em um acidente quando o motorista realiza tarefas visuais, manuais ou que envolvem ambas as ações enquanto dirige. Recentemente, o Departamento de Trânsito norte-americano orientou as montadoras a evitarem recursos que distraiam os motoristas.

Aqui no Brasil, a situação não é diferente. O Departamento de Polícia Rodoviária Federal registrou 191.117 acidentes em rodovias federais no ano passado e considera que a falta de atenção do motorista foi responsável por 46,34% deles. Segundo o órgão, o uso de celular continua sendo uma das principais causas, já que muitos dos aparelhos encontrados nos carros acidentados registram ligações ou envio de mensagem próximos ao momento da colisão. “O celular aumenta o índice de acidentes do que o próprio álcool porque o celular é usado 24 horas, enquanto o álcool é usado à noite e nos finais de semana”, explica Dirceu Rodrigues Alves Junior, chefe do departamento de medicina de tráfego ocupacional da Abramet.

Estatísticas da Polícia Rodoviária Federal mostram que de 2007 a 2011, mais de 53 mil acidentes nos 70 mil quilômetros de rodovias brasileiras foram causados por motoristas distraídos. Assim, a falta de atenção ao volante mata quase cinco vezes mais do que a velocidade inapropriada, dez vezes mais do que a ingestão de álcool e 15 vezes mais do que ultrapassagens indevidas.

Distração ao volante (Foto: Shutterstock)

O analista técnico em segurança viária do Cesvi, Gerson Burin, acrescenta que trocar o CD que está ouvindo, conferir informações em telas multimídia, chamar a atenção de um filho e, principalmente, tentar alcançar um objeto dentro de uma bolsa, por exemplo, contribuem muito com esse tipo de colisão. “Todo momento que você tira os olhos da via ou muda sua atenção você pode se envolver em um acidente. Por exemplo, se estiver trafegando a 100 km/h, cada segundo de distração representa cerca de 27 metros de desatenção”, explica. Além do uso de aparelhos tecnológicos, a Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo considera que dirigir com sono, fumando, comendo, assistindo a filmes e até ouvindo música em alto volume podem contribuir para a falta de concentração dos motoristas.

O número de acidentes desse tipo pode ser ainda maior do que o registrado pelas autoridades, já que, muitas vezes, o nível de detalhamento obtido atualmente não permite determinar se a desatenção do motorista foi a principal causa do acidente. “Por conta da falta de detalhes, fica difícil criar mapeamento que aponte o numero de ocorrências em função dessas distrações”, diz Burin.

Legislação falha

Na opinião dos especialistas norte-americanos e brasileiros os acidentes desse tipo podem ser minimizados com a contribuição dos próprios motoristas, de agências reguladoras e das próprias montadoras. Para o NHTSA, devem ser estabelecidas diretrizes para que as montadoras balanceiem a inovação tendo a segurança viária em mente.

Para Gerson Burin, do Cesvi, a conscientização da população é a principal ferramenta para chegar a uma solução: “Por mais que existam leis severas, se a pessoa não tiver consciência de que pode causar um acidente, a gente não consegue reduzir a quantidade de acidentes causados pela falta de atenção”, afirma. Por outro lado, a legislação brasileira possui falhas por não ter se atualizado às novidades tecnológicas incorporadas pelo mercado automobilístico. “Nós precisamos ter legislação específica em todo o país, com fiscalização e multas severas, semelhantes a aquelas que estão sendo propagadas com o uso do álcool porque essa é uma maneira de coibir”, afirma Dirceu Rodrigues Alves Junior, da Abramet. (Com Alberto Cataldi)

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